THE NEW YORK TIMES

Tradução de Paulo Migliacci

Dois anos atrás, Michael J. Fox passou por uma cirurgia para remover um tumor benigno em sua espinha. O ator e ativista, que há três décadas convive com o Mal de Parkinson, teve de aprender, de novo, a andar e a falar.

Quatro meses mais tarde, ele levou um tombo na cozinha de sua casa no Upper East Side de Nova York e fraturou o braço seriamente; foi preciso estabilizá-lo com 19 pinos e uma placa. Imerso em dois processos sacrificados de recuperação, um depois do outro, Fox começou a questionar se não teria exagerado sobre a ideia de esperança em seus três primeiros livros de memórias, “Lucky Man”, “Always Looking Up” e “A Funny Thing Happened on the Way to the Future”.

“Tive uma crise de consciência”, disse Fox, de seu escritório em Manhattan, em uma entrevista por vídeo no mês passado. Por trás dele, eram visíveis fotos de Tracy Pollan, com quem está casado há 31 anos, e de seu cachorro Gus. “Fiquei pensando naquilo que venho dizendo às pessoas. Digo a elas que tudo vai ficar bem, mas as coisas podem ser péssimas!”

A solução dele foi canalizar aquela honestidade para um quarto volume de memórias, “No Time Like the Future”, que a editora Flatiron lançou dia 17 de novembro. Para um exemplo de sua nova postura, considere a perspectiva de Fox sobre se deslocar em uma cadeira de rodas.

“Permitir que outra pessoa determine a direção em que estou indo, e com que velocidade, pode ser uma experiência frustrante e causar uma sensação de isolamento. Quem empurra está no comando”, escreve Fox. “Do ponto de vista do ocupante da cadeira, o mundo é feito de traseiros e cotovelos. Ninguém consegue me ouvir. Para compensar, ergo a voz e de repente me sinto como Joan Crawford em ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane’, latindo ordens”.

Ele prossegue: “Em geral, a pessoa que está no controle é um desconhecido, um empregado do hotel ou aeroporto. Tenho certeza de que, se pudéssemos nos olhar nos olhos, reconheceríamos nossa humanidade mútua. Mas muitas vezes, na cadeira de rodas sou bagagem. Ninguém espera que eu diga muita coisa. Só que fique sentado e imóvel”. Mais adiante, ele acrescenta: “Ninguém escuta a bagagem”.

Antes de sua cirurgia na espinha, Fox estava trabalhando em um livro sobre golfe. “E aí a vida interferiu”, ele disse. “Comecei a pensar sobre a importância de poder me movimentar e expressar livremente em termos físicos, e sobre a experiência de perder isso. E em lidar com a rendição que é me deitar em uma mesa de cirurgia e autorizar alguém a me cortar. Não sei como outras pessoas se sentem, mas consigo perceber como isso acontece, para mim, e escrever a respeito”.

“No Time Like the Future” trata do esporte favorito de Fox, que ele joga em Long Island com seus “tios” –o jornalista George Stephanopoulos, o escritor Harlan Coben e os humoristas Jimmy Fallon e Bill Murray. “Eles não dão importância às minhas dificuldades em jogar gole com Mal de Parkinson, e abraçam a verdade de que o golfe é um inferno para todo mundo”.

O livro também trata dos relacionamentos, separados mas iguais, entre Fox e seus quatro filhos adultos (ele disse que todos estão sempre alertas em busca de sinais de favoritismo); sua decisão de deixar de trabalhar como ator (“não ser capaz de falar de modo confiável é o fim da linha para um ator”); o motivo para que ele recentemente tenha mandado tatuar uma tartaruga em seu antebraço direito (“um registro visual do poder da resiliência”); e, talvez os trechos mais comoventes, sobre o avanço gradual de sua doença.

Ele escreve que “na ausência de uma intervenção química, o Mal de Parkinson me congelará, imobilizará, transformará meu rosto em pedra e me emudecerá. Ficarei inteiramente à mercê do meu ambiente. Para uma pessoa que acredita que movimento é emoção, vibração e relevância, isso é uma lição de humildade”.

Para um certo consumidor da cultura pop da Geração X, Michael J. Fox traz lembranças da série “Family Ties” no horário nobre da TV, do filme “De Volta para o Futuro” em cartaz nos cinemas, de entrevistas na revista adolescente Tiger Beat. A energia que o tornava uma presença tão fascinante na tela está presente em seu livro. Está presente também na imagem dele que vejo em minha tela –a mesma tela em que contemplei diferentes encarnações de Fox durante toda a minha vida. Mas desta vez ele está falando só comigo. Cheguei a me preocupar com a possibilidade de arranjar briga com a agente de imprensa superprotetora de Fox caso eu excedesse o tempo de entrevista combinado.

O único momento em que essa impressão de ímpeto desaparece é quando ele fala de Pollan. “O livro é uma carta de amor a Tracy. Foi ela que me levou a sobreviver”. Ele engole em seco, abana sacode a cabeça, ergue uma mão. “A tudo”.

O princípio que orienta o novo livro foi inspirado pelo cunhado de Fox, Michael Pollan, escritor conhecido pelos livros “The Botany of Desire” e “How to Change Your Mind”. Fox diz que “ele sempre aconselha rapidez e verdade. Rapidez e verdade. Escreva honestamente e escreva rápido. Não quero ser aquele cara acomodado em uma almofada e aconselhando as pessoas a serem a bola. Não vou dizer qualquer coisa a não ser o que sei por experiência. Tenho 59 anos, e não muito tempo para conversa mole”.

Um rascunho do livro estava pronto no momento em que Fox e a família se transferiram para a casa deles em Quogue, na costa de Nova York, para encarar os meses iniciais da pandemia. De lá, ele continuou a trabalhar seis dias por semana, via FaceTime, com Nelle Fortenberry, sua assistente de produção, que estava em Sag Harbor. A dupla terminou por alugar um escritório, no qual seu processo de trabalho foi o mesmo adotado nos livros anteriores. Fortenberry preparava cartões com os temas de que Fox desejava tratar e os afixava à parede. Abaixo de cada um deles, uma fila de outros cartões coloridos continha histórias pertinentes sobre cada assunto.

“Minha forma de trabalhar é escrever anotações que ninguém consegue ler, e depois eu as dito para Nelle”, disse Fox.

Fortenberry se estendeu mais sobre o processo, em uma entrevista por telefone. “A letra de Michael nunca foi grande coisa”, ela disse. “Por isso, ele fala e eu digito. Não sou ‘ghost writer’ ou coautora. É ele que escreve o livro”.

Os dois colaboram há 25 anos, em livros, filmes e projetos para a Michael J. Fox Foundation, uma organização de pesquisa e mobilização para o combate ao Mal de Parkinson. O primeiro encontro entre ela e Fox foi para discutir um emprego na produtora dele, cargo que ela nem sabia se desejava.

“Em cinco minutos, eu senti a profunda amizade que se seguiria”, ela disse. “Não acho que tenha me sentido dessa maneira em qualquer momento, antes daquilo, o tipo de certeza que você sente ao conhecer o cara com quem vai se casar, ou quando já visitou 50 casas e enfim encontra uma que o faz pensar que não precisa mais procurar, que já encontrou sua casa. Senti-me dessa maneira com relação a Michael desde o começo”.

Fortenberry disse que a fundação recebe cartas de pacientes de Mal de Parkinson que querem saber qual é o remédio milagroso que Fox usa. “Não existe remédio milagroso. É simplesmente o jeito de ser de Michael”, ela disse. “Mas o novo livro mostra um lado diferente dele, e não é fabricado. É 100% real. E causa dor no coração”.

Fox escreve: “Fui honesto nas coisas que disse à comunidade dos pacientes de Mal de Parkinson? O entendimento a que cheguei com a doença é sincero, mas a expressão de seus riscos continua a ser um pouco leviana”. Ele costumava acreditar no ditado que manda fazer limonada, se a vida lhe der limões, mas agora, escreve “que se dane –não quero mais fazer limonada”.

Bob Miller, presidente e editor-chefe da Flatiron, que também conhece Fox há 20 anos, disse que “No Time Like the Future” é mais “melancólico, ponderado e calmo. É o livro de uma pessoa que reflete sobre como continuar a encontrar significado quando as coisas se tornam ainda mais difíceis”.

Ele inicialmente achava que a mensagem de Fox poderia ser útil para contrabalançar o panorama político, mas isso foi antes da pandemia. Agora, ele disse, “estamos cercados pela doença e pela possibilidade de doença em base cotidiana, e por isso de alguma forma podemos todos nos aproximar de Michael. Queremos as respostas dele”.

As pessoas costumam perguntar a Fox se ele pretende se mudar de volta para o Canadá, ou lhe pedir ajuda para que elas possam se mudar para o Canadá, onde ele nasceu e viveu até os 18 anos. “Construí uma vida aqui e me tornei cidadão americano para poder votar”, ele disse. “E agora quero estar aqui para ajudar a consertar o que está acontecendo. Há uma limpeza em curso. As coisas vão melhorar”.

As palavras parecem otimistas, não? Fox ri. “Otimismo é esperança baseada em informação”, ele disse. “Alguém lhe passa uma informação, você aceita e compreende, e precisa repassá-la”.

Ele o faz por meio de sua fundação, que já está em funcionamento há 20 anos e bancou mais de US$ 1 bilhão em pesquisas sobre o Mal de Parkinson. “Minha esperança era a de que já pudéssemos ter saído do negócio, a esta altura”, ele disse. “Achei que encontraríamos uma cura –basta passar óleo e pelo de cachorro e tudo se resolve, ou algo assim”.

Ainda assim, Fox escreve no livro que “na busca pela cura do Mal de Parkinson, estamos absolutamente certos de que somos a ponta de lança”.

No epílogo, ele contempla a primeira onda da pandemia. Descreve o barulho dos vizinhos batendo panelas, soprando apitos e tocando sinos para homenagear os trabalhadores de saúde, “uma banda de milhares de pessoas enviando uma mensagem ao universo”. Ele recorda seu sogro, Stephen Pollan, que morreu em 2018 e era conhecido por sua frase habitual de consolo: “Pode esperar, garoto. As coisas vão melhorar”.

Ou, nas palavras de Fox, “com gratidão, o otimismo se torna sustentável”.