EXEMPLO A SER SEGUIDO – Comunidade Quilombola São Miguel: aqui a agricultura familiar dá certo!

Presidente da Associação Jorge Henrique Gonçalves Flores, o Jorge do Quilombo

 

Reportagem: Jota Menon

Fotos: Graci Sulzbach

 

A Comunidade Quilombola São Miguel, onde vivem cerca de 55 famílias, totalizando pouco mais de 300 descendentes de escravos, é o típico “assentamento” que deu certo no Brasil. Com menos de 400 hectares de terras para atender todas as necessidades destas centenas de pessoas, na localidade todos desfrutam da possibilidade de produzir em um pequeno pedaço de terra e levam a vida com abundância à mesa e com a possibilidade de guardar algum dinheirinho da venda do excedente que ali produzem.

A história da Comunidade remonta ao tempo da escravatura, porém, foi só em 12 de setembro de 2011 que a famosa “luz no fim do túnel” começou a brilhar. Naquela data, o Quilombo São Miguel, como é mais conhecido, se tornou a primeira comunidade quilombola do estado a receber o título definitivo de propriedade da terra onde vivem descendentes de escravos.

À época eram apenas 16 famílias, com 80 pessoas ao todo, em uma a área desapropriada que media 333 hectares.

Casas populares estão em fase final de construção

Passados pouco mais de cinco anos da demarcação definitiva da área, a Comunidade Quilombola São Miguel se tornou um exemplo de que a agricultura familiar pode dar certo no país. “É um exemplo dado pelo negro que, com o apoio do município, do Estado e do Governo Federal, com trabalho e comprometimento, em se plantando se produz” diz Jorge Henrique Gonçalves Flores, presidente da Associação.

Em uma casa adaptada funciona a máquina embaladora e cortadora de sachês de mel

Na época em que receberam o título definitivo, representando o pensamento de todos os quilombolas, Jorge afirmou: “A comunidade está ansiosa pelo desenvolvimento. Temos vários projetos em estudo, como produção de frutas, hortaliças, artesanato, criação de gado. A primeira coisa a fazer será a preparação do solo. Depois vamos procurar o Banco do Brasil para acessar o Pronaf {Programa Nacional da Agricultura Familiar}”.

Tudo o que ele previra se tornou realidade.

Hoje, os pequenos produtores da Comunidade são os responsáveis pelo fornecimento da merenda escolar das escolas municipais e estaduais de Maracaju e ainda sobram alimentos para serem comercializados nas barraquinhas da feira livre. “Com muito trabalho, saímos da condição de produtores de alimentos para a subsistência para produtores de alimentos em nível comercial” relata.

Jorge reconhece que sem o apoio estatal não haveria o sucesso que se conseguiu em todas as áreas a que os moradores do Quilombo se dispuseram a atuar: produção de hortaliças, frutas, galinhas caipiras, apicultura, carne, leite e derivados de leite, além do artesanato que também se faz presente na comunidade.

Na propriedade de Amarildo Romero de Oliveira são produzidas mudas de guavira

“Já faz três anos que temos atendido a merenda escolar numa parceria de grande importância que firmamos com a Prefeitura Municipal. A partir do momento que o Dr. Maurílio {prefeito Maurílio Ferreira Azambuja} assumiu a Prefeitura firmamos essa parceria e, com ela, registramos uma elevação muito grande nas condições de vida da nossa gente” frisa.

Com a área total dividida em pequenos lotes, cada um deles sob a responsabilidade de uma família, Jorge Henrique destaca que hoje o quilombola da São Miguel conseguiu a sua independência. “Nós vimos transformações interessantes aqui na Comunidade. Vimos a pessoa sair da bicicleta para uma “motinha” {motocicleta}; {da motocicleta} para um automóvel. As condições de vida só têm melhorado nestes três anos de trabalho” comenta.

Diretor do Departamento Municipal Agropecuário, Eloar Castelacci

“Nos próximos quatro anos, com o apoio do prefeito Dr. Maurílio, acredito piamente que chegaremos a um altíssimo patamar de sustentabilidade” diz Jorge Henrique arriscando uma futurologia sobre os avanços que vêm ocorrendo no local.

Por fim, Jorge comenta sobre a qualidade dos alimentos produzidos na Comunidade Quilombola São Miguel. “Nós temos trabalhado para produzir alimentos cada vez mais saudáveis. Quanto menos produtos químicos forem usados, melhor. E, inclusive, temos trabalhado nossas crianças para que cresçam cientes de que é de suma importância produzirmos alimentos saudáveis”.

AGROFLORESTA – Recentemente o Banco Mundial lançou um programa de incentivo ao reflorestamento e recuperação de nascentes. A Comunidade Quilombola São Miguel teve um dos dois projetos do Estado aprovados pelo organismo financeiro, sendo agraciada com recursos da ordem de R$ 190 mil destinados à recuperação de áreas de nascentes e cerrados.

Jorge Henrique relata que com os recursos será possível a recuperação de uma área de 50 hectares a 100 hectares com árvores frutíferas, transformando uma parte da área demarcada em área de agrofloresta extrativista. “E vamos tirar recursos desta área” afirma, adiantando que a comunidade já está produzindo mudas de guavira, fruta nativa do cerrado de excelente potencial para o comércio.

Artesão Joaquim entrega obra artesanal à esposa do vice-prefeito, Josi Ortiz Sanches
Primeira-dama, leila Azambuja, recebe tábua de cortar concebida pelo artesão quilombola

No último dia 22, quando a reportagem do “Maracaju Hoje” acompanhou a equipe da Secretaria Municipal de Assistência Social, liderada pela secretária Ilma, pela primeira-dama, Leila Azambuja, e pela esposa do vice-prefeito, Leila Ortiz Sanches, no Dia de Beleza proporcionado às mulheres da comunidade, algumas milhares de mudinhas de guavira já estavam quase prontas para serem plantadas na área de reflorestamento.

CASAS POPULARES – Com apoio da Prefeitura Municipal e em parceria com o Governo da União, a Comunidade Quilombola São Miguel está sendo beneficiada com a construção de 23 casas populares, algumas delas em fase de conclusão e que já são ocupadas pelas famílias beneficiárias. “Serão 23 famílias beneficiadas com essa ação concretizada através dessa parceria liderada pela Prefeitura Municipal” disse.

Outro benefício que já chegou à comunidade é o sistema de distribuição de água tratada, totalmente automatizado, o que só se tornou possível devido o irrestrito apoio da municipalidade.

Já com recursos dos próprios quilombolas, a Associação adquiriu uma placa solar visando a produção de energia elétrica para o bombeamento de água para a irrigação da área de produção de hortifruti. Com esse mecanismo, além de contribuir com o ecossistema, já que a produção de energia elétrica a partir da energia solar é ecologicamente correta, a comunidade está economizando algo em torno de R$ 200 por mês na conta de energia.

Placa solar foi instalada para produzir energia elétrica barata e ecologicamente correta

Finalizando suas explanações sobre os avanços obtidos pela Comunidade, Jorge Henrique agradeceu os inúmeros parceiros que contribuíram para que a área se desenvolvesse e chegasse ao patamar de excelência em que se encontra na produção de hortifrutigranjeiros, destacando a Prefeitura Municipal, em especial a primeira-dama Leila e o diretor do Departamento Agropecuário, Eloar Castellacci; o Sebrae/MS; a Agraer; Universidade Federal de Mato Grosso do Sul; o deputado estadual João Grandão “e um grande número de outros parceiros”. Por fim um agradecimento especial: “À Rádio Cidade e ao jornal ‘Maracaju Hoje’, sempre prontos a encampar e divulgar nossas lutas e conquistas”.

APICULTURA – Por outro lado, na Comunidade Quilombola, Amarildo Romero de Oliveira é quem desenvolve um projeto de apicultura de excelentes resultados. Apesar de muitos colonos terem seus apiários, Amarildo só despertou para a produção de mel em escala comercial há dois anos, quando a Secretaria Municipal de Educação, através do setor de Nutrição, inseriu o produto na merenda escolar.

Ele conta que uma das exigências era que o mel fosse comercializado para a Prefeitura Municipal embalado sem sachês. Ele começou “devagarzinho” e hoje atende a todas as escolas públicas do município. “Para atingir o atual estágio de produção, fiz três cursos de manejo dos mais avançados e foi assim que cheguei a esse nível de produção” conta.

No dia do bate-papo com a reportagem, Amarildo havia feito a entrega de mais de 650 quilos de mel a granel para terceiros e se preparava para entregar mais 200 quilos em sachês de 10 gramas cada para a merenda escolar. Nas escolas, cada criança atendida com a merenda escolar recebe, a cada refeição, um sachê de mel como suplementação alimentar.

Para a produção em escala industrial, Amarildo adaptou uma casa, onde funciona a máquina de embalar e cortar os pacotinhos com o mel, os quais são enviados semanalmente para Maracaju pelo caminhão que vem buscar os hortifrutigranjeiros utilizados na preparação diária da merenda escolar ofertada a mais de 5.000 alunos atendidos pela Prefeitura Municipal.

HISTÓRIA – A comunidade São Miguel teve seu começo na segunda década do século XX, com o casamento dos negros descendentes de escravos Manoel Lourenço Gonçalves e Joaquina Gonçalves de Souza, que vieram para a região de Maracaju, estabelecendo-se na divisa desse município com Nioaque. Em 1941, eles regularizaram a posse da terra que hoje ocupam.  Em maio de 2006, Vó Joaquina, como era conhecida a fundadora da comunidade, faleceu com 109 anos.

A comunidade chama-se São Miguel em homenagem à uma imagem do santo que segundo contam, era toda de ouro e teria sido enterrada na fazenda.

Na região de Maracaju e Nioaque existem outras quatro comunidades quilombolas, das famílias Cardoso, Araújo Ribeiro, Romano Martins da Conceição e a Bulhões.